Pedir senha, vigiar curtidas e controlar amizades: quando o namoro vira alerta

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No Dia dos Namorados, flores, jantares e declarações costumam ocupar o centro das atenções. A data celebra o afeto, a parceria e a construção de vínculos, mas também pode ser um convite para refletir sobre a qualidade das relações amorosas. Afinal, nem tudo o que é tratado como prova de amor representa, de fato, cuidado. Em muitos casos, atitudes vistas como demonstração de preocupação podem esconder controle, insegurança e sofrimento emocional. 

O alerta se torna ainda mais relevante diante de dados recentes sobre violência nas relações. A pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Datafolha, divulgada em 2025, aponta que 29% das mulheres relataram que alguém pegou seu celular ou computador para checar mensagens contra sua vontade. O levantamento também mostra que 32% foram menosprezadas repetidamente a ponto de se sentirem inúteis. Os dados ajudam a entender por que atitudes muitas vezes tratadas como ciúme, preocupação ou prova de amor precisam ser observadas com atenção.

Pedir senha do celular, monitorar curtidas nas redes sociais, exigir localização em tempo real, controlar roupas, questionar amizades ou transformar qualquer saída individual em motivo de briga são comportamentos que ainda aparecem com frequência em relacionamentos. Muitas vezes, eles são justificados pelo ciúme ou pela ideia de proteção. No entanto, quando limitam a liberdade do outro, podem indicar uma dinâmica pouco saudável.

A psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia do UNICESUSC, Karen Trevisan, explica que uma relação saudável não é aquela sem conflitos, mas aquela em que há respeito, diálogo e possibilidade de existir como indivíduo dentro da vida a dois. “O cuidado dentro de uma relação precisa preservar a autonomia do outro. Quando uma pessoa precisa controlar escolhas, amizades, roupas, redes sociais ou a rotina do parceiro, isso deixa de ser cuidado e passa a ser uma forma de controle. O amor saudável não diminui a liberdade, ele amplia a sensação de segurança”, destaca.

Segundo Karen, o ciúme pode aparecer em diferentes relações, mas precisa ser observado quando se transforma em vigilância ou cobrança constante. “Sentir insegurança em algum momento é humano, mas a forma como cada pessoa lida com isso faz toda a diferença. Em uma relação madura, o incômodo pode ser explicitado e dirimido por meio de conversa. Em uma relação tóxica, ele vira acusação, invasão de privacidade, chantagem emocional ou tentativa de limitar a vida do outro”, afirma.

Alertas e comportamento

Entre os principais sinais de alerta estão a necessidade de justificar todos os passos, o medo de falar sobre determinados assuntos, a sensação de estar sempre errando, a culpa por manter amigos ou projetos pessoais e o isolamento gradual da rede de apoio. Comentários depreciativos, brincadeiras que humilham, silêncio punitivo e ameaças de término também podem indicar que a relação deixou de ser um espaço de acolhimento.

A diferença entre cuidado e controle está, muitas vezes, no efeito que a atitude produz. Perguntar se a pessoa chegou bem em casa pode ser uma demonstração de carinho. Exigir localização o tempo todo, desconfiar sem motivo e criar punições emocionais quando o outro não responde imediatamente é outra coisa. O mesmo vale para o uso das redes sociais: confiança não combina com monitoramento permanente.

Relacionamentos saudáveis também precisam de individualidade. Ter vida própria, manter amizades, estudar, trabalhar, descansar, sair sozinho ou cultivar interesses pessoais não deveria enfraquecer a relação. Pelo contrário, contribui para vínculos mais equilibrados. “Quando duas pessoas se relacionam, elas não deixam de ser sujeitos individuais. Uma parceria saudável permite que cada um continue crescendo, fazendo escolhas e preservando sua identidade. Conhecer a si mesmo é um fator de proteção para à saúde mental e por consequência para a escolha e permanência em relacionamentos saudáveis. Gostar da própria companhia é essencial”, reforça Karen.

O tema também dialoga com um cenário mais amplo. A Pesquisa Nacional de Violência contra as Mulheres 2025, do DataSenado e do Observatório da Mulher contra a Violência, estima que 27% das brasileiras já tenham sofrido violência doméstica e familiar. A 11ª edição do levantamento ouviu 21.641 mulheres em todos os estados, consolidando duas décadas de monitoramento sobre o tema no país.

Para Karen, falar sobre relações saudáveis no Dia dos Namorados não significa esvaziar o romantismo da data, mas ampliar a compreensão sobre o que sustenta um vínculo afetivo. “Amor não deve ser confundido com posse. Uma relação saudável se constrói com confiança, respeito, escuta e liberdade. Quando existe medo, culpa constante ou perda de autonomia, é importante acender um sinal de alerta. Ser privada(o) de autonomia financeira é algo que potencializa a dependência e muitas vezes oportuniza a violência”, pontua a psicóloga.

Neste Dia dos Namorados, mais do que celebrar o amor idealizado, a data pode servir como ponto de partida para uma pergunta importante: essa relação me faz bem? Quando o vínculo gera medo, insegurança constante, culpa ou perda de liberdade, é importante procurar apoio, conversar com pessoas de confiança e, se necessário, buscar ajuda profissional.

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