Café com Saúde debate impactos da nova NR-1 para as indústrias do Vale do Itajaí

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A inclusão dos fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais das empresas foi o tema central do Café com Saúde: NR-1, realizado nesta quinta-feira, 11 de junho, no SENAI Blumenau. O encontro encerrou a programação regional da Semana da Indústria no Vale do Itajaí e reuniu empresários, lideranças e profissionais para discutir os impactos da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 na rotina das organizações.

Com o tema “NR-1 na prática: o papel da liderança na saúde mental do trabalhador”, o painel abordou os caminhos para identificar fatores que podem comprometer a saúde, a segurança e o bem-estar das equipes e para estruturar medidas preventivas adequadas à realidade de cada ambiente de trabalho.

A atualização da NR-1 passou a vigorar em 26 de maio de 2026 e tornou explícita a necessidade de considerar os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o GRO. Esses fatores devem integrar o inventário de riscos das empresas e ser contemplados no Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR.

O debate reforçou que a análise não deve se limitar às condições individuais de cada trabalhador. O foco está na forma como o trabalho é organizado: distribuição de tarefas, ritmos de produção, prazos, metas, autonomia, suporte oferecido pelas lideranças, comunicação interna e prevenção de situações de assédio e violência.

Um novo olhar para a organização do trabalho

Para a engenheira de segurança do trabalho Natália Menezes, a atualização coloca em evidência uma discussão que já faz parte das práticas de Saúde e Segurança no Trabalho, mas que exige um olhar mais atento das organizações.

Segundo ela, o primeiro passo é compreender como as atividades são realizadas no dia a dia. Isso inclui avaliar a pressão por resultados, a clareza na definição das prioridades e a forma como as tarefas são distribuídas entre os profissionais. A reflexão também deve alcançar situações recorrentes nas empresas, como ambientes nos quais todas as demandas são tratadas como urgentes ou nos quais as equipes têm pouco apoio para enfrentar desafios cotidianos.

Natália destacou que não existe uma ferramenta única aplicável a todas as organizações. A metodologia deve ser definida conforme o perfil da empresa e pode envolver questionários, escutas individuais ou coletivas, observação das rotinas e abordagens participativas, com garantia de sigilo. A partir da identificação dos fatores de risco, a empresa deve propor medidas de controle, registrar as ações adotadas e acompanhar os resultados em um processo contínuo de melhoria.

A participação dos trabalhadores é uma etapa essencial desse processo. A metodologia utilizada pelo SESI valoriza a escuta das equipes para compreender os aspectos que podem levar ao sofrimento ou ao adoecimento mental e definir estratégias adequadas a cada realidade.

Prevenção exige planejamento

A psicóloga Rúbia Pein, que acompanha o desenvolvimento de programas de saúde mental em indústrias catarinenses, ressaltou que a NR-1 deve ser entendida como uma oportunidade para fortalecer práticas preventivas.

Segundo ela, a saúde mental está relacionada tanto às experiências individuais quanto às características do ambiente de trabalho. Por isso, estar em conformidade com a norma não significa apenas realizar um levantamento pontual, mas construir um planejamento com ações capazes de contribuir para um ambiente saudável ao longo do tempo.

Rúbia também destacou a importância de uma atuação multidisciplinar, envolvendo profissionais de Psicologia, Segurança do Trabalho, Medicina do Trabalho, Recursos Humanos e lideranças. O psicólogo pode contribuir desde a sensibilização das equipes até a construção dos planos de ação e o manejo de situações críticas, desde que tenha conhecimento sobre a dinâmica dos ambientes organizacionais.

A ampliação do acesso ao atendimento psicológico é uma das medidas que podem contribuir para a criação de uma cultura de saúde e bem-estar nas empresas. Quando há segurança psicológica, os profissionais encontram maior abertura para falar sobre dificuldades e buscar apoio antes que os problemas se agravem.

Resultados aparecem quando a prevenção se torna parte da cultura

A médica do trabalho Thaís Almeida compartilhou a experiência de um projeto desenvolvido há mais de um ano com apoio do SESI. O trabalho envolveu levantamento de informações sobre saúde mental, sensibilização das equipes e definição de ações preventivas, com critérios de eficiência e sigilo.

Segundo Thaís, os primeiros resultados começaram a aparecer após aproximadamente seis meses. Além da análise dos indicadores de absenteísmo, foi possível perceber mudanças no comportamento dos profissionais, que passaram a identificar nos colegas sinais que anteriormente poderiam passar despercebidos.

No recorte acompanhado pelo projeto, os afastamentos relacionados à saúde mental aparecem atrás apenas das questões ortopédicas entre os principais motivos de absenteísmo. O cenário reforça a necessidade de transformar os dados disponíveis em ações estruturadas e de longo prazo.

“O trabalho bem gerenciado pode ser protetor da saúde mental. A prevenção é o melhor que podemos fazer”, afirmou Thaís.

A dimensão do tema também pode ser observada em escala global. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, depressão e ansiedade geram um impacto estimado de US$ 1 trilhão em perdas anuais relacionadas à produtividade.

Lideranças são peças-chave

Durante a rodada de perguntas conduzida por Rafael Orcina, os participantes buscaram esclarecer como iniciar a aplicação prática das novas diretrizes. Entre os principais pontos debatidos esteve a necessidade de preparar as lideranças para reconhecer sinais iniciais de sofrimento e atuar antes que as situações se tornem mais graves.

A capacitação dos gestores foi apontada como uma das primeiras medidas a serem adotadas pelas organizações. Por estarem em contato direto com as equipes, as lideranças têm um papel estratégico na distribuição das tarefas, no acompanhamento das rotinas e na gestão de conflitos.

O cuidado também deve alcançar os próprios líderes, que precisam de suporte para desempenhar essa função adequadamente. A construção de ambientes mais saudáveis passa ainda por iniciativas relacionadas ao sono, à alimentação, à atividade física, à educação financeira e ao acesso a profissionais especializados.

Café com Saúde amplia diálogo com as indústrias

O encontro marcou a primeira edição do Café com Saúde, iniciativa criada para abordar temas relacionados à saúde conforme as demandas identificadas junto às indústrias da região. Para a gerente executiva da FIESC no Vale do Itajaí, Graziela da Silva, a programação contribui para aproximar o setor produtivo de assuntos que interferem diretamente na rotina e na competitividade das empresas.

“A Semana da Indústria é uma oportunidade para que empresários, lideranças e profissionais estejam mais próximos de conteúdos que contribuem para o desenvolvimento do setor produtivo, com temas que impactam diretamente a competitividade das empresas da região”, afirma.

Promovida pela Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina, a FIESC, por meio do SESI, SENAI, IEL e CIESC, a Semana da Indústria no Vale do Itajaí reuniu empresários, lideranças e profissionais desde o dia 14 de maio. A programação abordou assuntos relacionados à produtividade, à inovação, à sustentabilidade e à saúde nos ambientes de trabalho.

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