“Eu sei que preciso descansar, mas não consigo.” A frase, cada vez mais comum em consultórios de psicologia, revela uma mudança importante na forma como as pessoas se relacionam com o próprio tempo livre. Se antes a principal queixa era a falta de tempo para descansar, agora cresce o número de pessoas que, mesmo quando têm a oportunidade, encontram dificuldade para desacelerar.
Uma pesquisa da plataforma Indeed revelou que 68% dos brasileiros afirmam não conseguir descansar plenamente durante as folgas, porque utilizam esse período para resolver tarefas pessoais ou permanecem mentalmente conectados ao trabalho, demonstrando a dificuldade de se desconectar das obrigações cotidianas. Segundo a percepção na prática da professora do curso de Psicologia do UNICESUSC, Ana Carolina Maurício, esse comportamento se intensificou após a pandemia de Covid-19, período em que as fronteiras entre vida profissional e pessoal se tornaram cada vez mais tênues.
“O que tenho percebido é uma mudança importante no discurso das pessoas. Antes elas diziam que não tinham tempo para descansar. Hoje, muitas afirmam que simplesmente não conseguem descansar. Em alguns casos, a própria sessão de psicoterapia acaba sendo vivida como um dos poucos momentos em que elas se sentem autorizadas a parar”, explica.
A psicóloga observa que o trabalho remoto, a hiperconectividade e a disponibilidade permanente criaram uma sensação de vigilância constante. Mesmo fora do expediente, muitas pessoas permanecem mentalmente ligadas às demandas profissionais, respondendo mensagens, antecipando problemas ou sentindo culpa por não estarem produzindo. Mas o fenômeno vai além do emprego formal. “A ideia de trabalho também envolve o trabalho doméstico, o cuidado com a casa, com os filhos e com outras responsabilidades. Muitas pessoas relatam uma sensação constante de insuficiência, porque entendem que sempre existe mais alguma tarefa para fazer. O trabalho doméstico parece nunca terminar”, afirma.
Essa dificuldade em interromper a rotina de produtividade tem reflexos diretos na saúde mental. Casos de ansiedade, insônia e esgotamento emocional têm se tornado mais frequentes, acompanhados por um aumento dos diagnósticos de burnout e do uso de medicamentos para tratar problemas relacionados ao sono e à ansiedade. Ana Carolina, afirma que existe um paradoxo preocupante neste novo cenário, que até mesmo o descanso passou a ser encarado como uma obrigação. “Descansar deixou de ser entendido como uma necessidade humana e passou a ser tratado como mais uma tarefa da lista. As pessoas acreditam que precisam descansar da maneira certa, no tempo certo, produzindo resultados também durante o lazer. Quando isso acontece, o descanso perde sua função de recuperação física e emocional.”
Para a professora, o problema costuma começar muito antes do diagnóstico de burnout. O organismo já demonstra sinais de desgaste quando a pessoa perde a capacidade de desligar a mente, sente culpa ao interromper o trabalho ou acredita que parar significa desperdiçar tempo. “O burnout não acontece de um dia para o outro. Antes dele, normalmente já existe uma história de ausência de descanso. Não porque alguém proíba esse descanso, mas porque ele passa a ser visto como um obstáculo para concluir todas as tarefas”, destaca.
Há um consenso entre os especialistas que alertam que o descanso não deve ser tratado como recompensa apenas após o cumprimento de todas as obrigações, já que essa lógica cria um ciclo impossível de ser concluído. Em um contexto de demandas permanentes, sempre haverá uma nova atividade esperando. “Recuperar o direito ao descanso também significa reconhecer seus benefícios para a saúde física, emocional e cognitiva. Descansar não é perder tempo. É uma necessidade do corpo e da mente. Quando deixamos de descansar, comprometemos nossa capacidade de concentração, de tomada de decisões, de criatividade e até de estabelecer relações saudáveis. O descanso não atrapalha a produtividade. Ele é justamente uma das condições para que ela exista de forma sustentável.”
Em uma sociedade que valoriza a ocupação constante como sinônimo de sucesso, reaprender a descansar pode ser um dos maiores desafios da atualidade e, ao mesmo tempo, um dos caminhos mais importantes para preservar a saúde mental.

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