Testosterona baixa explica a falta de libido em mulheres? Entenda.

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A diminuição da libido e da satisfação sexual é um problema muito comum no climatério. E não é raro que seja diretamente associado à testosterona pelas mulheres, que correm para realizar exames de dosagem. Mas níveis baixos do hormônio não significam necessariamente que essa seja a causa dos sintomas, nem que exista indicação para reposição.

“É cada vez mais comum a mulher chegar ao consultório acreditando que a perda do desejo é explicada por uma testosterona baixa no exame. Mas não existe uma relação direta entre o número encontrado no laboratório e a função sexual. Existem mulheres com níveis normais de testosterona com baixa libido e mulheres com ‘testosterona baixa’ que não apresentam qualquer prejuízo no desejo sexual”, explica o ginecologista Dr. Igor Padovesi, especialista em menopausa certificado pela North American Menopause Society (NAMS) e idealizador do ‘Expert em Menopausa’, maior plataforma de educação médica em menopausa do Brasil.

O médico ressalta que mulheres com resultados semelhantes podem apresentar experiências completamente diferentes em relação à excitação e à satisfação sexual.

“A resposta do organismo à testosterona não depende apenas da quantidade do hormônio circulante. A disponibilidade para os tecidos, a sensibilidade individual e a atuação dos receptores também podem interferir”, detalha o especialista.

Além disso, como as mulheres apresentam concentrações de testosterona muito mais baixas que os homens, os métodos tradicionalmente utilizados pelos laboratórios têm pouca precisão.

“Por isso, a dosagem de testosterona realizada pelos exames convencionais tem utilidade muito limitada e não é usada para diagnosticar uma suposta deficiência do hormônio ou explicar alterações da função sexual feminina. Tanto que, em pesquisas clínicas que precisam medir a testosterona de forma mais fidedigna, são utilizados métodos laboratoriais mais sensíveis e precisos. Na prática, o resultado do exame não deve ser interpretado isoladamente para explicar a falta de libido nem para definir a indicação do tratamento”, esclarece o especialista.

O fato de a dosagem isolada não explicar a falta de libido não significa que a testosterona não tenha utilidade no tratamento das disfunções sexuais femininas. Uma revisão publicada recentemente no The Journal of Sexual Medicine analisou 33 estudos sobre hormônios andrógenos e função sexual em diferentes fases da vida e encontrou evidências de melhora do desejo e da satisfação sexual em determinados grupos.

“Os resultados mais consistentes foram em mulheres na pós-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo, condição marcada por uma redução persistente da libido”, diz o Dr. Igor Padovesi, acrescentando que é importante diferenciar uma variação natural da libido de um transtorno.

“A mulher pode ter uma diminuição natural do desejo em determinados períodos da vida devido a diversos motivos, incluindo a própria rotina e o relacionamento. No transtorno do desejo sexual hipoativo, a queixa é persistente e causa incômodo, sofrimento e impacto importante na qualidade de vida”, detalha. A revisão também encontrou resultados positivos no uso de testosterona em mulheres na pré-menopausa. Entretanto, os estudos são menos robustos e os dados ainda insuficientes para sustentar uma recomendação mais ampla.

“Na pré-menopausa, a testosterona pode ser indicada em casos específicos, mas ainda não temos o mesmo volume e consistência de evidências encontrados depois da menopausa”, pontua o ginecologista.

O Dr. Igor reforça que, independentemente do momento do climatério, o diagnóstico e o tratamento devem ser individualizados e baseados principalmente na história clínica. Mesmo o transtorno do desejo sexual hipoativo não deve ser diagnosticado apenas com base no nível de testosterona total, conforme diretrizes da International Society for the Study of Women’s Sexual Health.

“A testosterona pode ser uma ferramenta importante quando existe uma indicação adequada. Mas a libido não é comandada por um único hormônio e tratar apenas um número no exame pode não resolver a queixa e ainda expor a mulher desnecessariamente aos efeitos do tratamento”, alerta o médico.

“Ondas de calor, insônia, cansaço, alterações de humor, ansiedade, depressão, estresse, uso de medicamentos e sintomas geniturinários, como ressecamento vaginal e dor durante a relação, também podem estar envolvidos na redução da libido. A indicação do tratamento deve ser clínica e considerar a persistência da queixa, o sofrimento provocado por ela e esses outros fatores”, ressalta.

Isso não quer dizer, porém, que o exame para medir os níveis de testosterona seja totalmente dispensável.

“Quando a terapia é considerada, a testosterona total pode ser medida antes do início do tratamento para identificar valores inesperadamente elevados e estabelecer uma referência. Durante o acompanhamento, a dosagem ajuda a evitar que o hormônio ultrapasse a faixa fisiológica feminina”, diz o Dr. Igor Padovesi.

“A função do exame não é encontrar uma deficiência que precise ser corrigida nem estabelecer um número que a paciente deva alcançar. Ele é utilizado principalmente como ferramenta de segurança depois que a indicação já foi definida clinicamente”, completa.

FONTE: DR. IGOR PADOVESI: Médico ginecologista, autor do livro ‘Menopausa Sem Medo’ (Editora Gente), especialista em menopausa certificado pela North American Menopause Society (NAMS) e membro da International Menopause Society (IMS). Formado e pós-graduado pela USP, onde foi preceptor da disciplina de Ginecologia, é idealizador do ‘Expert em Menopausa’, maior plataforma de educação médica em menopausa do Brasil. Também é especialista em cirurgias ginecológicas minimamente invasivas e criador do Instituto de Cirurgia Íntima, sendo reconhecido internacionalmente por sua liderança nessa área. É membro sênior da European Society of Aesthetic Gynecology (ESAG) e em 2024 conquistou dois prêmios de primeiro lugar em congressos mundiais com sua técnica de ninfoplastia a laser, realizada em consultório. Também é palestrante e mentor de médicos nas áreas de menopausa e cirurgias íntimas. CRMSP 134933 | RQE 40093. Instagram: @dr.igorpadovesi

REVISÃO: https://academic.oup.com/jsm/article/23/8/qdag206/8732207

DIRETRIZ: https://www.isswsh.org/images/PDF/jsm_18_5_849.pdf

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