Ao longo de sua carreira, Gretta Sarfaty fez do corpo, da imagem e de sua própria identidade territórios de experimentação artística. Fotografia, performance, vídeo e pintura integram uma produção que questiona os modos de representar o feminino e as fronteiras entre o que se mostra e o que permanece oculto. Essa rota é o ponto de partida de Diáfana, exposição que o Museu Judaico de São Paulo apresenta a partir de 13 de novembro. Com curadoria de Patricia Wagner, a mostra reúne mais de 60 trabalhos da artista.
Referência de body art e da arte feminista no Brasil, Sarfaty rompeu com convenções da representação feminina ao colocar o próprio corpo no centro de sua prática. Mais do que objeto de observação, ele se torna instrumento de investigação e transformação, por meio do qual a artista aborda questões de intimidade, identidade e relações sociais. Em diferentes linguagens e momentos de sua produção, a imagem de si deixa de ser uma representação estável para se tornar um campo de experimentação, no qual a percepção do corpo e do sujeito está em permanente construção.
É nesse percurso que o título Diáfana encontra seu sentido. Rendas, véus, vidros, vapores e espelhos aparecem como elementos que filtram, fragmentam ou transformam as imagens, criando diferentes possibilidades de percepção. O que se vê, portanto, depende também daquilo que se interpõe entre o olhar e seu objeto.
A exposição propõe, assim, uma reflexão sobre a própria construção da imagem e da identidade. Quem se revela quando um corpo é exposto? O que permanece oculto mesmo diante do olhar? Ao reunir trabalhos de 1976 a 2023, a mostra acompanha como essas questões atravessam sua produção, em uma pesquisa que tensiona os limites entre presença e ausência, intimidade e exposição, corpo e representação.
Nascida em Atenas, na Grécia, em 1947, Gretta Sarfaty chegou ao Brasil em 1955 e construiu uma carreira internacional, com passagens por cidades como Paris, Milão, Nova York e Londres. Sua investigação ganhou força nos anos 1970, com séries como Auto-Photos (1976), em que a manipulação de negativos permitiu explorar novas formas de retratar mulheres e seus corpos. O percurso apresentado inclui ainda trabalhos de Evocative Recollections (1978–1981), Metamorphic Recollections (1981–1985), Kabbalah (1985) e Reflections of a Woman (1991–1997), além de Inside the Box (2023), evidenciando as transformações de sua linguagem ao longo das décadas.
Com obras presentes em acervos como os do Museu de Arte de São Paulo (MASP), da Pinacoteca de São Paulo, do Instituto Inhotim, do Museo Reina Sofía, na Espanha, e do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, em Portugal, a artista consolidou uma trajetória que atravessa disciplinas e desafia convenções visuais. Em Diáfana, esse conjunto de trabalhos mostram como suas experimentações ampliaram as possibilidades de pensar o corpo, a identidade e a experiência feminina na arte contemporânea.
Realizada em parceria com a Central Galeria, a exposição ocupa o segundo subsolo do Museu e fica em cartaz até 11 de abril de 2027.
Sobre o Museu Judaico de São Paulo (MUJ)
O Museu Judaico de São Paulo cultiva e apresenta a diversidade das expressões da cultura judaica em diálogo com o contexto brasileiro e com o contemporâneo, dedicando-se à defesa dos direitos humanos e ao combate ao antissemitismo e a todas as formas de preconceito. Inaugurado em 2021, fruto de uma mobilização da sociedade civil, o MUJ possui o maior acervo judaico da América Latina. Além de quatro andares expositivos, com exposições de longa duração e temporárias, o Museu realiza festivais literários, concertos musicais, seminários, debates, publicações, jornadas, oficinas e um amplo programa educativo, entrelaçando perspectivas judaicas e não judaicas. Os visitantes também têm acesso a uma biblioteca com mais de mil livros para consulta, a um café com delícias gastronômicas comandadas por chefs e restaurantes judaicos e a “Lodjinha”, com produtos diversificados para festas e tradições judaicas.

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