Botas de compressão e esfoliação com borra de café aparecem como caminhos para reduzir a celulite. Uma aposta na pressão sobre as pernas; a outra, no atrito dos grãos e na associação do café com a cafeína presente em cosméticos. Mas pernas menos inchadas e pele mais macia significam que as depressões foram tratadas?
Para responder, é preciso distinguir essas mudanças. A celulite envolve a relação entre a pele, a gordura abaixo dela e os septos fibrosos, estruturas que conectam a pele aos tecidos profundos e participam da formação das depressões. Por isso, uma alteração no volume ou no toque da região não comprova, sozinha, melhora dessas marcas, explica a médica Danuza Alves, diretora médica da Clínica Leger Porto Alegre. “Uma perna pode desinchar e continuar com celulite. A redução de líquido não significa que as estruturas responsáveis pelas depressões foram modificadas.”
Essa diferença ajuda a entender o alcance das botas de compressão pneumática. Suas câmaras inflam e desinflam em sequência, exercendo pressão para favorecer o retorno venoso e a movimentação de líquidos. Quando indicadas, podem auxiliar no controle do edema. A redução do inchaço pode mudar temporariamente a aparência da região, mas não permite afirmar que o equipamento elimine gordura ou corrija de forma duradoura as depressões.
O benefício depende também do uso adequado. Pressão, duração e frequência precisam considerar as condições de saúde, especialmente diante de problemas circulatórios, alterações de sensibilidade ou doenças cardíacas. Aumentar a intensidade na tentativa de obter uma mudança estética maior pode provocar dor e lesões, em vez de melhorar o resultado.
A mesma cautela vale quando a melhora percebida está no toque da pele. É o que pode acontecer com a esfoliação feita com borra de café: o atrito remove células da superfície e pode deixar a região mais macia, mas não demonstra ação sobre as estruturas profundas envolvidas na celulite. Esfregar com força ou insistir na aplicação pode irritar a pele, principalmente quando ela já está sensibilizada.
A dúvida sobre o café, porém, vai além da esfoliação. Como a cafeína aparece em produtos anticelulite, sua presença costuma ser usada para justificar a receita caseira. Existem pesquisas com resultados favoráveis para formulações específicas, mas concentração, estabilidade e capacidade de penetração fazem parte do que foi estudado. “Um estudo com creme de cafeína não valida o uso da borra. Não basta ter o ingrediente: a formulação e a maneira como ele chega à pele fazem parte do resultado”, explica Danuza.
Assim, as duas promessas exigem a mesma pergunta: o que mudou e por quanto tempo? Pernas menos inchadas ou pele mais macia logo após o uso não comprovam uma redução duradoura das depressões.
Essa avaliação também orienta a escolha dos cuidados, já que inchaço, flacidez e depressões podem coexistir e exigir abordagens diferentes. Para Danuza, reconhecer um benefício pontual ajuda a evitar expectativas que o recurso não consegue atender. “Eu começo identificando o que incomoda e o que cada tratamento pode modificar. Não é preciso desconsiderar o alívio do inchaço ou a maciez da pele, mas esses efeitos não devem ser apresentados como eliminação da celulite”, conclui.

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