Museu da UFSC sofre invasão de seres místicos em exposição sobre Cascaes

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O MArquE (Museu de Arqueologia e Etnologia) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), no campus Trindade, em Florianópolis, foi literalmente invadido na noite de terça-feira (10) por uma porção de seres místicos. Saídos do universo ficcional, das lendas urbanas e do mundo bruxólico, os integrantes do Grande Baile Místico da Ilha de Santa Catarina se uniram aos artistas da Acap (Associação Catarinense dos Artistas Plásticos) para uma “aparição” na abertura simultânea das exposições “Tessituras do Invisível – Desdobrando Cascaes e “Cascaes: Os Fios Originários”, que terão longa exibição no espaço que o próprio folclorista escolheu para guardar seu acervo.

O hoje bloco místico surgiu como um cortejo alegórico inspirado no folclore do pesquisador catarinense Franklin Cascaes. Idealizado por Bebel Orofino e por Gelci Coelho, o Peninha, autor do conto “Baile de Bruxas em Itaguaçu”, é também um movimento de resistência e de divulgação do universo mitomágico, explica a curadora Patrícia Amante. Igualmente entusiasta do movimento, a vice-presidente da Acap, Maria Esmênia, se integrou, devidamente caracterizada, aos personagens.

Parte da programação de 50 anos da Acap, “Tessituras…” fica em exibição até 25 de setembro deste ano. A mostra reúne obras de 16 artistas em uma releitura contemporânea do legado do pesquisador, um dos oito fundadores da associação, juntamente com Eli Heil, Martinho de Haro, Max Moura, Ernesto Meyer Filho, Pedro Paulo Vecchietti, Rodrigo de Haro e Vera Sabino.

Nascido e criado na praia de Itaguaçu, na porção continental da Capital, quando a região ainda era do município de São José, Cascaes se tornou um dos maiores folcloristas brasileiros. Ele usou do imaginário popular não só para relatar as práticas sociais da população litorânea catarinense, mas também para representar, por meio de sua arte, as tensões da época em que sua arte foi tardiamente valorizada, nas décadas de 1970 e 1980, em plena ditadura militar.

Medos e resistências da sociedade em preto e branco

Projetada como uma espécie de “floresta de narrativas”, utilizando tecidos de mais de três metros de altura como tela para as mais diferentes técnicas artísticas exploradas todas em preto e branco, “Tessituras…” dialoga com as transformações sociais contemporâneas. Alguns dos temas, como a escalada da exploração imobiliária e a poluição, já preocupavam Cascaes. As curadoras, Meg Tomio Roussenq e Anna Moraes, buscaram por meio de rigorosa seleção o diálogo entre gerações em uma profusão de sensibilidades.

História, fé, monstruosidades e muita beleza

O presidente, Gelsyr Ruiz, reforça a alegria em dar à Acap o espaço que ela merece no cinquentenário. As ações, além de remexerem memórias, uniram os talentos do passado com os do presente ocupando espaços nobres da capital catarinense. E a sétima exposição coroa este momento histórico em outro lugar especial, o MArquE, que reúne mais de 3.000 obras do acervo de Cascaes.

Ruiz criou “Memória Impressa – Território Instável”, uma reflexão sobre o pertencimento e também sobre a dispersão das paisagens. “Nasci em Bagé e renasci em Itaguaçu”, reflete, lembrando sua própria origem e a de Cascaes, o artista que fez de Itaguaçu o chão inaugural de sua obra. Para ele, as pedras, grandes personagens, deixam de ser monumentos e se convertem em memória. “Não herdo o território: atravesso-o, assim como as pedras de Cascaes atravessam o tecido e perdem rigidez e monumentalidade.

Rosângela Cherem, Maria Esmênia, Audrey Laus, Ricardo Rosário, Larissa Arpana, Meg Tomio, Rodrigo Gonçalves e Gavina. Divulgação

Apostando na delicadeza da poesia, “Franklin Joaquim Cascaes, um Artista Multifacetado!”, da vice-presidente da Acap, Maria Esmênia, é inspirado nos versos de “As Rendeiras e a Renda de Bilro”, no qual o mestre fazia um registro etnográfico da cultura açoriana e da identidade feminina. Esmênia criou três cortinas em papel arroz com desenhos em carvão vegetal, nanquim e aquarela para traduzir a poética da resistência diante da desvalorização do trabalho artesanal e o pouco reconhecimento artístico, além de registrar a transmissão intergeracional, a herança cultural, a devoção e o vínculo com a espiritualidade.

Eliane Veiga buscou a oração para afastar as bruxas, mencionada no livro “O Fantástico na Ilha de Santa Catarina”, de Cascaes, em “Oratio Praesidium”, um estandarte de voal branco com a oração de São Miguel Arcanjo repetida em recortes e imagens de anjos. A oração é para proteger as crianças e combater o ataque das bruxas. A imagem de anjo, parte do processo criativo da artista, “fortalece o estandarte que deve ser colocado na porta das casas para afastar as bruxas”, explica.

Outra visão contemporânea sobre as figuras míticas está em “Bruxa da Virose”, na qual Audrey Laus ressignifica o desenho a nanquim de Cascaes, “A Bruxa Grande”, de 1976, trazendo reflexões sobre crescimento imobiliário, devastação ambiental e falta de estrutura sanitária, com o aumento de poluição de rios e mares e da ocorrência das viroses nas temporadas de verão.

Ao acessar a reserva técnica do museu da UFSC, onde está o acervo de Cascaes, um detalhe inspirou o artista Gavina. Ao observar sacos meticulosamente organizados com pequenos bancos, luminárias e objetos cênicos, seu olhar fixou nos bancos em miniatura. E o objeto funcional tornou-se narrador de sua obra. Sobre ele, a bandeira com paisagens, botânicas e territórios, superfície por onde passam contos, mitos, fábulas, mistérios e, também, a realidade atual.

A secretária da Acap, Larissa Arpana, mantém a temática de transmutação constante em seus trabalhos, em “Ser em Metamorfose”. “Percebi que a metamorfose estava presente nas obras de Cascaes, não somente a das bruxas, mas a dualidade na vida, com o bem e o mal, o céu e o inferno, a doença e a cura, em preto e branco.”

“Sempre vi a floresta como um portal para o imaginário, onde a fantasia caminha por tempos antigos e misteriosos. Fascina-me o coro da mata — o chamado das aves, o movimento dos macacos e o estalar de seres ocultos”, interpreta Roberta Viotti. Ela desenhou um cenário de mata, onde animais e figuras fantásticas mimetizados na vegetação refletem a alma da obra de Cascaes, que em sua concepção não via a floresta e o folclore como coisas separadas. E, por fim, lembra que quando a mata desaparece sob o concreto da especulação imobiliária, não perdemos apenas árvores e oxigênio, mas o “palco” onde o imaginário respira.

Em “Voo”, Laïs Krücken usa a frotagem – técnica artística de textura que consiste em colocar uma folha de papel sobre uma superfície irregular e esfregar lápis, giz de cera ou grafite para transferir o relevo – de folha seca da palmeira Jerivá em carvão mineral sobre tecido de algodão, tendo no avesso citações em grafite. As franjas desgastadas remetem aos lendários ventos da Ilha e ressignificam a obra de Cascaes, lembrando o voo imaginário que fazemos aos velhos tempos da Ilha.

Silvia Zanatta Da Ros foi buscar na história do povoamento da Capitania de Santa Catarina terreno fértil para a dureza do viver, a proliferação das crendices, a alternativa medicinal dos chás e benzeduras e os saberes da curandeira como forma de resistência daqueles para quem o sonho do conto de fadas da terra prometida foi substituído pelo das bruxas e lobisomens. “Cascaes, 200 anos depois, registrou as contradições da saga que ainda assombra o povo açoriano e seus descendentes”, observa Silvia, lembrando das lutas dos colonos por um terreno em “Posse”.

Maria de Minas criou por meio da fotografia híbrida a série “Quando a Ilha Desperta as Bruxas” enaltecendo as forças dos fenômenos naturais. Cada imagem, onde o primeiro plano foca nas pedras de Itaguaçu, funciona como uma aparição das potências encantadas do local. A água turbulenta e as rochas iluminadas por névoas tornam-se corpos míticos ganhando forma na luz. Ao reinterpretar Cascaes, ela amplia o mito: as bruxas permanecem vivas, insinuando-se no mistério que envolve a Ilha e seu entorno.

Dulce Penna volta a apostar na cerâmica, sempre presente em suas obras, trabalhando pequenas peças que dão corpo a seres híbridos. Em “Sobre Escutas”, cria pássaros, peixes, seres e figuras grotescas. “Se Cascaes desenhava para preservar a memória, eu modelo para corporificá-la. O que em sua obra era linha e palavra, no meu trabalho torna-se matéria, peso, textura em suspensão num espaço onde narrativas possam novamente circular.”

“Território Interdito”, de Susana Fros, retira o medo do campo do mito e reinscreve-o no território real. A delicada figura feminina, de costas, emerge não como personagem da narrativa folclórica, mas como espaço de contenção, vigilância e interdição. O arame farpado, serpenteando a obra, atua como cerco. “O gesto de segurar o arame não configura libertação nem submissão. Trata-se de um contato consciente com a violência que estrutura o controle do corpo e do território. Ao assumir esse limite, o corpo interrompe a lógica do medo sobrenatural e expõe sua permanência como mecanismo político e social”, explica a artista.

Rodrigo Pereira volta a trazer as paisagens que tão bem conhece em “Fragmentos Ilhéus”, um diálogo com o legado de Cascaes convidando à contemplação do bucólico vilarejo, a gente “açorita” e as figuras míticas e fantásticas que evocam lendas, crenças e saberes transmitidos pela oralidade.

Ricardo do Rosário foca nas pragas contemporâneas, como as doenças mentais, atribuídas ao excesso de produtividade e positividade. “Em ‘Crise’, trago sentimentos relacionados ao pânico, onde um medo intenso e súbito surge, sem explicação. Uma explosão intensa de sentimentos é retratada pelos astronautas saindo da lata”, explica.

O artista visual e professor Rodrigo Gonçalves vê a cidade como um organismo sensível, que respira, cicatriza e se move. Utilizando mais uma vez a delicadeza do tecido, que em suas mãos ganham formas orgânicas, criou “Monstro Simoníaco”. A construção, com argolas sobre filó duplo, se manifesta como forma difusa.

“Não há um monstro a ser identificado ou enfrentado; há uma trama translúcida que se estende, cai, dobra-se e insiste, onde a cidade deixa de ser representação para tornar-se experiência”, explica ele. Ao contrário do monstro simoníaco de Cascaes, aqui sua monstruosidade se dilui na materialidade do espaço, em uma negociação contínua do próprio habitar.

As transformações urbanas, um dos monstros da atualidade, foram abordadas por Andrea V Zanella. Ela apostou na arte fotográfica em “O que Resta?”, uma colagem digital de fotos impressas sobre tecido revelando as inquietações da cidade. “Se estivesse iniciando hoje sua pesquisa, o que Cascaes registraria?”, questiona. A artista percorreu as vias locais fotografando os anúncios das transmutações do lugar.

Curadoria aposta em três eixos

A curadoria optou por criar três ambientes instalativos distintos, que conversam entre si.

1 – Corpo, Território e Ruptura

As obras investigam o político, o urbano e as violências contemporâneas, com trabalhos que deslocam o medo do mito para o real, expondo estruturas de controle, cerco e captura sobre corpos e territórios. E denunciam as “bruxarias do capitalismo” representadas pela especulação imobiliária, crise sanitária, monstros urbanos e adoecimento psíquico.

As obras e os artistas:

  • Susana Fros – “Território Interdito”| Arame farpado sobre tecido, corpo-território político
  • Audrey Laus – “Bruxa da Virose” | Material têxtil e plástico reciclável, devastação ambiental
  • Rodrigo Gonçalves – “Monstro Simoníaco” | Instalação com trama translúcida, cidade como rede de captura
  • Ricardo do Rosário – “Crise” | Estêncil e acrílico sobre tecido, crise de pânico contemporânea
  • Andrea V Zanella – “O Que Resta?” | Fotografia/colagem digital, transmutações urbanas
  • Sílvia Zanatta Da Ros – “Cascaes” | Texto/instalação sobre colonização e “bruxarias do capitalismo”
  • Roberta Viotti – “Sem Título” | Mata atlântica, especulação imobiliária, perda do imaginário
  • Eliane Veiga – “Oratio Praesidium” | Estandarte de voal, proteção contra forças contemporâneas

2 – Memória, Paisagem e Metamorfose

Os trabalhos investigam e retomam o gesto de Cascaes — a escuta, a preservação da memória e do que está em vias de desaparecer – pela materialidade têxtil, a impressão, a cerâmica e a xilogravura. Obras que pensam a paisagem como portal e memória.

As obras e os artistas:

  • Dulce Penna – “Sobre Escutas” | Cerâmica, seres híbridos, memória oral corporificada
  • Maria Esmênia – “A Cortina Rendada” | Papel arroz costurado sobre seda, rendas e tradição
  • Gavina – “Sem Título” | Xilogravura sobre pano americano, banco como narrador
  • Maria de Minas – “Quando a Ilha Desperta as Bruxas” | Fotografia, paisagem como entidade mágica
  • Gelsyr Ruiz – “Memória Impressa – Território Instável” | Impressão em tecido, paisagem em trânsito
  • Larissa Arpana – “Ser em Metamorfose” | Desenho e pintura em tecido, dualidade e transformação
  • Laïs Krücken – “Voo” | Frotagem de folha de palmeira, carvão sobre algodão
  • Rodrigo Pereira – “Fragmentos Ilhéus” | Mosaico em tecido, citações diretas de Cascaes
  • Presença da ausência

Este terceiro eixo traz, em referência a Cascaes, oito bancos brancos carregados de simbologia e afeto formando um espaço de escuta, encontro, trocas e criação.

Para visitar as exposições:

“Tessituras do Invisível – Desdobrando Cascaes” e “Cascaes: Os Fios Originários”

  • Visitação “Tessituras…”: até 25/9/2026, de terça a sexta-feira, das 7h às 19h
  • Visitação “Fios…”: até 10/7/2026, de terça a sexta-feira, das 7h às 19h
  • Quanto: gratuito
  • Onde: no MArquE da UFSC (rua Engenheiro Agronômico Andrei Cristian Ferreira s/n, campus do bairro Trindade, Florianópolis)

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