Ateliê de escuta: onde arte, psicanálise e filosofia se encontram numa proposta singular de cuidar de si

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O que acontece quando a arte chega antes da palavra? É para esse lugar de atenção, entre o que nos atravessa e o que nos afeta, que nasce o “Ateliê de Escuta: arte-psicanálise-filosofia”. São interrogações e ações em movimentos que vão privilegiar a escuta da intersubjetividade no projeto criado pelas psicanalistas Cléia Canatto e Luana Vizentin, visando aflorar o que há de comum na relação entre os sujeitos na experiência coletiva, em aposta de possíveis efeitos singulares.

Proposta única na cidade, o Ateliê propõe uma escuta analítica em grupo, onde a psicanálise se entrelaça com a filosofia e com a arte para criar um espaço de elaboração do que Freud chamou de “mal-estar na cultura”. Esse desconforto difuso, profundo e muitas vezes sem nome que habita o sujeito contemporâneo.

“A arte chega antes naquilo que a palavra muitas vezes inibe”, explica Cléia Canatto. “Ela desloca, toca, provoca. E é exatamente por isso que ela entra no trabalho como potência.”

A proposta: ensaiar a si mesmo

Desenvolvido por Cléia Canatto a partir de mais de 20 anos de clínica psicanalítica, conferindo lugar central à filosofia e à arte, o projeto nasce do conceito “ensaio de si”. O nome carrega uma dupla referência: o ensaio como forma literária, reflexiva, inacabada, em movimento; e o ensaio como prática artística, o exercício que antecede a apresentação, o espaço onde o erro é parte do processo.

A diferença em relação a um grupo terapêutico convencional não é apenas metodológica, mas sim filosófica. O Ateliê aposta que o inconsciente se revela também pela via da arte, que a filosofia desloca cristalizações que a clínica psicanalítica sozinha não alcança, e que o coletivo tem uma potência transformadora que o individual não esgota.

A edição inaugural: O Cuidado de Si

Em sua edição inaugural “O Cuidado de Si: alinhavando afetos e afrouxando nós”, prevista para agosto de 2026, o Ateliê se propõe a trabalhar em cinco encontros algumas das interrogações mais fundamentais da existência humana.

O ponto de partida é o “mal-estar”, pensado a partir de Freud e Nietzsche: aquela imposição silenciosa que a cultura exerce sobre o sujeito, exigindo renúncias que deixam marcas. Daí o trabalho se aprofunda nos “afetos”, compreendidos a partir de Freud, Espinosa e Nietzsche, como forças que nos movem antes mesmo que a razão intervenha. O terceiro eixo é o próprio “cuidado de si”, conceito central da obra tardia de Michel Foucault, e é nele que o projeto encontra seu ponto mais original. Por fim, os encontros chegam àquilo que o Ateliê nomeia como “dor-de-existir”: o limiar onde arte, psicanálise e filosofia se encontram para dar forma ao que resiste à palavra.

O cuidado de si, explica Cléia Canatto, não é um conceito ingênuo. “Foucault passa toda a obra se perguntando pelas questões externas, pelo mundo que rodeia o sujeito, o saber, o poder, as discursividades, e no final da obra ele chega ao sujeito ético. É quase um caminho inverso.” Cuidar de si, na leitura que o Ateliê propõe, é a condição para que alguém possa se fazer ser sujeito no mundo, ter voz, tomar posição, intervir onde circula. “É onde eu me afeto e pelo que me afeto, pelo que me mobiliza, pelo que me agride, que eu vou ter essa condição, a partir dos cuidados que tenho comigo, da criação de mim, de ter voz.”

Nesse sentido, o conceito do cuidado de si é também fundo e figura da edição inaugural ao mesmo tempo: está por baixo de tudo que se trabalhará nos cinco encontros e é, ele mesmo, o tema central a ser elaborado. 

Não é terapia. Não é palestra. Não é curso. É outra coisa: uma escuta singular com outros — e talvez seja exatamente isso que falte nos dias de hoje.

“A tríade arte-psicanálise-filosofia me norteia e está no centro de minha experiência. Ela determina minhas escolhas, fundamenta meus atos e me autoriza a me ensaiar na vida sustentada pelo desejo. É por ensaiar-me que chego ao meu estilo e assim revelo-me nas buscas incessantes de contornar a falta que me constitui”, finaliza Cléia.

Debate aberto ao público

Para apresentar o projeto e criar o terreno afetivo do que está por vir, o Ateliê de Escuta realizará uma atividade preliminar. No dia 11 de julho, em parceria com o cinema Paradigma, o filme “Dias de Nietzsche em Turim” (Júlio Bressane, 2001), que será exibido às 10h, abre caminho para um debate sobre o legado de Nietzsche na compreensão do humano, atravessado pela psicanálise, pela filosofia e pela arte. O debate contará com Anderson Abreu, psicanalista, artista e professor na Universidade de Viena e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSC, e Luiz Felipe Guimarães Soares, crítico literário e professor titular do Departamento de Artes da UFSC. Uma tarde para pensar com seriedade e com o espírito inquieto, assim como sugeria Nietzsche.

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Sobre as coordenadoras do projeto

Cléia Canatto é psicanalista com mais de 20 anos de clínica na escuta de adultos, adolescentes e crianças. Possui  formação em Psicanálise, Acompanhamento Terapêutico AT, Gestão de Pessoas, Dinâmica de Grupo, Psicologia e Ciências Sociais. Coordenadora da Atividade Psicanálise & Arte na Instituição Psicanalítica Maiêutica Fpolis (2015-2022). Direção artística do Espetáculo “As Masculinidades em Ney”. Concepção e direção artística do Ensaio “Ensaio de si”, trabalho decisivo na sua criação do Ateliê de Escuta.

Luana Vizentin atua como psicanalista há quase 20 anos. É mestranda do Programa de Pós-Graduação Profissional em Direito/UFSC, possui formação em psicanálise freudo-lacaniana (Maiêutica Florianópolis/2009-2024), especialização em Psicologia Clínica com habilitação em Terapia Familiar (FAMILIARE/2010) e graduação em Psicologia (UNIVALI/2006).

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Debate: Dias de Nietzsche em Turim (2001)

  • 11 de julho de 2026 (sábado) | Filme: 10h às 11h30 | Debate: 11h40 às 13h
  • Paradigma Cine Arte – SC 401, Corporate Park | Florianópolis
  • Ingressos: R$ 5,00 no local
  • Ateliê de Escuta
  • Edição inaugural: 08 de agosto de 2026 | Cinco encontros
  • Segunda edição: setembro de 2026 | Cinco encontros
  • Inscrições: ensaiodesi.com.br
  • @cleia_canatto | @luanavizentin

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