Publicada na capa da Nature em abril de 2026, a pesquisa “The evolutionary history and unique genetic diversity of Indigenous Americans” traz novos elementos para o entendimento da origem e da evolução dos povos indígenas da América. Com base na análise de 128 genomas completos de alta cobertura, o maior conjunto desse tipo já analisado para populações indígenas americanas, o estudo revela uma diversidade genética muito maior do que a previamente conhecida, incluindo mais de 1,4 milhão de variantes inéditas.
O estudo também reforça que a ocupação da América ocorreu há pelo menos 15 mil anos, a partir de populações que já estavam se diferenciando geneticamente há cerca de 25 mil anos na região da Beríngia, que conectava Ásia e América durante a última era glacial. Os resultados mostram que a história desses povos é mais complexa do que se imaginava, com múltiplas migrações para a América do Sul e adaptações a ambientes extremos. Essas adaptações deixam marcas no genoma, especialmente em genes ligados à imunidade, ao metabolismo e à reprodução, evidenciando a ação da seleção natural.

Um dos achados centrais é a identificação e melhor compreensão do componente ancestral Ypikuéra (termo de origem Tupi), demonstrado como um sinal genético que persiste há mais de 10 mil anos em populações indígenas da América e que pode refletir a ação da seleção natural. Esse componente também apresenta conexões com populações da Australásia, indicando uma história ancestral compartilhada mais profunda do que se conhecia. Além disso, o estudo detecta sinais de ancestralidade arcaica, como neandertais e denisovanos, mantidos ao longo do tempo, possivelmente por contribuírem para adaptações biológicas importantes no contexto americano.

Na prática, os resultados mostram que os povos indígenas da América carregam variantes genéticas únicas que não estão representadas em estudos baseados majoritariamente em populações europeias. Isso tem impacto direto na medicina de precisão e nas políticas públicas, pois pode influenciar tanto o risco quanto a proteção em doenças comuns. Incorporar esse conhecimento sobre a diversidade genômica é essencial para desenvolver diagnósticos e tratamentos mais eficazes e justos baseados em medicina de precisão.
A pesquisa conta com a participação de pesquisadores vinculados e egressos do Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular (PPGBM) da UFRGS, que tem longa tradição em estudos genéticos com povos indígenas. “A publicação na Nature representa um avanço científico extraordinário. Resultado de um trabalho construído com rigor, colaboração e respeito às populações indígenas”, destaca a coordenadora do PPGBM, Maria Cátira Bortolini, e uma das autoras do estudo. Ainda de acordo com a pesquisadora, “espera-se que esse estudo estimule a valorização da diversidade genética humana e da nossa história evolutiva, valorizando os povos originários da América, e contribua para descentralizar visões historicamente eurocêntricas na ciência”, conclui. Mais informações sobre o PPGBM em www.ufrgs.br/ppgbm

HALLO! Magazine surge em 2013, com edições impressas, com notícias orientadas à soluções, despertando interesse e engajamento de seus leitores e leitoras. Em 2022, já é multiplataforma (formatos impresso e eletrônico).


