O que acontece quando a amizade se transforma em método de criação? Existem encontros que seguem um curso próprio, imprevisível, orgânico. Foi assim que nasceu “Movimento Nara Evangeline”, exposição inaugural da artista visual Renata Gordo, que abre dia 8 de outubro, quinta-feira, às 16h, na Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti, no Centro de Florianópolis.
A mostra é fruto de sete anos de convivência entre Renata e a artista e ambientalista Nara Guichon, num acompanhamento próximo que se transformou, aos poucos, em amizade e trocas criativas. Desse encontro nasceu, nas palavras da própria artista, “um vórtice, onde encantos e memórias se mesclaram: restos de barcos, árvores frondosas, costuras de histórias em trapos, verdades inventadas e brincadeiras sérias”. Fotografias produzidas ao longo da convivência se somam a imagens do arquivo familiar de Renata, além de tecidos e objetos cotidianos, compondo um universo no qual memória e imaginação se entrelaçam.


Nara Guichon fala sobre o encontro das duas artistas como um processo que revela a sua essência e que resgata a ancestralidade. “Quando a Renata cruzou a porta do meu ateliê pela primeira vez, nenhuma de nós duas sabia onde aquele encontro e a vontade dela em conhecer meu modus vivendi iria dar ou nos levar. Dali em diante muita coisa frutificou, sem trato, sem contrato, vivenciávamos os momentos. A Renata tem uma alegria silenciosa ou escondida em fotografar o que a toca, o que o olho dela enxerga. E isso me fez enxergar muita coisa que a mim pareciam corriqueiras”, conta Nara.
Entre a memória e o futuro sonhado
“Nara Evangeline” habita um entre-lugar. É uma pesquisa que caminha de forma não linear, composicional, como descreve Renata, mas sempre movida pelo desejo de transformar a memória em um terreno vivo e em constante composição e decomposição, para nutrir sonhos. Ao revisitar documentos e arquivos de família, a artista pratica o que a escritora e pesquisadora estadunidense Saidiya Hartman chama de “fabulação crítica”: uma forma de contar histórias que disputam a memória coletiva através das lacunas, em um movimento contra a narrativa comum do homem branco cisgênero europeu e heterossexual, e que busca plantar novas narrativas nos arquivos e espaços públicos, defendendo o direito à diferença, ao incompreendido e ao que não pode ser capturado. Ao mesmo tempo, num processo de reverenciar as antepassadas.
A casa como jardim de memórias
Na exposição, a casa surge como espaço de pesquisa e criação, um lugar onde se cultivam gestos, saberes e afetos transmitidos ao longo do tempo. Cuidado, modos de fazer e estratégias de sobrevivência aparecem como formas de vidência, uma inteligência sensível herdada e reinventada a cada geração.
O encontro entre Renata e Nara não é apenas o assunto da mostra, mas seu próprio mecanismo: aquilo que movimenta, compõe e recompõe memórias, natureza, território e feitiços, fazendo brotar novas possibilidades de existência.
Programação e acessibilidade
A abertura, no dia 8 de outubro, reúne Renata Gordo e Nara Guichon para uma roda de conversa, abordando o processo criativo e os temas centrais da exposição, com tradução em Libras.
A programação conta com atividades formativas e diálogos abertos ao público a serem realizados na Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti ao longo dos meses de outubro e novembro. No dia 20 de outubro, das 14h às 16h, Nara Guichon fará uma fala sobre seu trabalho e sua relação com a natureza, a percepção e a harmonia das cores. No dia 27 de outubro, às 13h30, será realizada uma visita guiada, mediada pela artista Renata Gordo, voltada para a comunidade da ACIC (Associação Catarinense para Integração do Cego). No dia 10 de novembro, às 14h, haverá uma formação sobre “Como tornar nossos espaços e práticas mais acessíveis a pessoas com deficiência?” com Thuanny Galdino. Ainda será realizada uma oficina gratuita de fotografia voltada para jovens, no dia 05 de novembro, das 14h às 17h, no Centro Cultural Anastácia.
A mostra conta com audiodescrição para todas as obras e tradução do texto em Libras e braille. Proposta selecionada pelo Edital Projeto de Fomento à Cultura Lidio Augusto Costa (Seu Lidinho), executado com recursos do Governo Federal e da Política Nacional Aldir Blanc, por meio da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes.
Sobre Renata Gordo
Renata Gordo (São Paulo, SP, 1983) é artista visual e montadora audiovisual radicada em Florianópolis desde 2009, vencedora do Prêmio de Reconhecimento por Trajetória Cultural no Audiovisual (Lei Aldir Blanc, 2020). Formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e estuda Artes Visuais (2023) pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Atuou em festivais no Rio de Janeiro, como o Festival do Rio e o Festival Curta Cinema, e integrou equipes de fotografia de curtas premiados internacionalmente, como A Espera (exibido em Cannes), Aquelas Mulheres (melhor filme pelo Recine) e Pornográphico (17 prêmios). Realizou o projeto Floripa Anônima (2016-2022), atuou na produção do projeto Os Arquipélagos de Nara Guichon. “Nara Evangeline” é fruto de pesquisa finalizada em 2024 com livro publicado em 2026, realizado via recursos federais e da Política Nacional Aldir Blanc.
Sobre Nara Guichon
Nara Guichon (Santa Maria, RS, 1955) é artista têxtil, designer e ambientalista. Vive e trabalha, desde 1983, em Florianópolis. Com contínua e reconhecida trajetória como tecelã, concebeu e desenvolveu, entre 1975 e 2015, um vigoroso trabalho nas áreas de design e moda sustentáveis, que lhe rendeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Desde 2017, tem se voltado exclusiva e silenciosamente à produção artística.
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FICHA TÉCNICA DA EXPOSIÇÃO “MOVIMENTO NARA EVANGELINE”
- Artista: Renata Gordo
- Em diálogo com: Nara Guichon
- Texto crítico: Paula Ramos
- Produção Executiva: Renata Gordo
- Identidade Visual e Design: Lorena Galeri
- Impressão do material gráfico e das fotografias: Caseira.art
- Projeto para Acessibilidade: Thuanny Galdino
- Libras: Temporal Produtora e Thuanny Galdino
- Audiodescrição: Temporal Produtora
- Montador: Flávio Xanxa
- Auxiliar de montagem: Gabriel Zeferino
- Assessoria de imprensa: Gisele Palma
Exposição “Movimento Nara Evangeline”
- Artista: Renata Gordo
- Abertura: 8 de outubro (quinta-feira), às 16h, com roda de conversa reunindo Renata Gordo e Nara Guichon
- Visitação: até 13 de novembro, de segunda a sexta, das 12h às 18h
- Onde: Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti
- Endereço: Praça XV de Novembro, 180 (piso superior), esquina com Rua Tiradentes, Centro – Florianópolis/SC
- Entrada gratuita
- Classificação Livre

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