A doença celíaca, condição autoimune desencadeada pelo glúten, proteína presente no trigo, centeio e cevada, afeta cerca de 1% da população mundial, segundo a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (Fenacelbra). No Brasil, estima-se que 2 milhões de pessoas convivam com a condição, mas 80% ainda não receberam diagnóstico. O Maio Verde, mês de conscientização da doença celíaca, reforça a importância de ampliar o debate e identificar sinais que muitas vezes passam despercebidos.
Entre os brasileiros que descobriram a doença tardiamente está o gastroenterologista Nelson Cathcart Jr., nascido em Florianópolis e diagnosticado em 2022. A experiência pessoal, somada à rotina no consultório, fez com que ele percebesse o quanto a doença ainda é subestimada tanto por pacientes quanto por profissionais de saúde.
Especialista em doenças do estômago e intestino, o médico explica que a doença celíaca pode se manifestar de forma silenciosa ou com sintomas que parecem não ter relação entre si. Ele ressalta que pode acometer pacientes de todas as idades, desde crianças até idosos, com quadros muito variados. “Vejo pacientes de todas as idades com sintomas muito diferentes no consultório. Alguns têm queixas intestinais, outros não têm nada no intestino”, relata. Segundo ele, já houve diagnóstico em pessoas com mais de 70 anos, o que mostra como a condição pode permanecer oculta por décadas.

Além dos sintomas intestinais comuns, como distensão abdominal, barriga estufada, diarreia, constipação, intestino mais solto, dor e sensação de má digestão, existem outros sintomas que podem acometer outras partes do corpo. Nelson explica que em alguns casos o paciente pode ter dor de cabeça, anemia persistente, alterações neurológicas e motoras, infertilidade e pode atrasar o crescimento em crianças. Por isso, muitas pessoas passam anos tratando sintomas isolados sem identificar a causa real. “Nem sempre o paciente imagina que o glúten pode ser o responsável e muitos colegas também não fazem essa conexão. Uma enxaqueca, uma anemia ou uma infertilidade podem ter relação com a doença celíaca”, afirma.
Por ser uma condição autoimune, Nelson ressalta que a doença pode aparecer associada a outras enfermidades, como problemas na tireoide e doenças reumatológicas. Além disso, pode aumentar o risco de linfoma e de câncer de intestino delgado, o que reforça a importância do diagnóstico precoce.
No próprio processo de descoberta, o médico percebeu como sinais aparentemente simples podem passar despercebidos. A confirmação veio por meio dos exames específicos recomendados para o diagnóstico. Desde então, a adaptação à dieta sem glúten, único tratamento disponível, exige atenção redobrada, especialmente com alimentos que muitos não imaginam conter a proteína. “O shoyu, por exemplo, é um produto comum, mas pode ter trigo na composição. Para quem é celíaco, isso faz toda a diferença”, comenta.
O gastroenterologista enfatiza que o maior desafio é a falta de percepção sobre a gravidade da doença quando não tratada. “Não é sobre medo. É sobre entender como uma doença silenciosa pode gerar tantas repercussões no corpo”, reforça.
Maio Verde
Durante o quinto mês do ano, duas datas dão visibilidade ao tema. O dia 16 de maio é reconhecido mundialmente como o Dia de Conscientização sobre a Doença Celíaca, dedicado a informar e sensibilizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce e da dieta sem glúten. Já no Brasil, o dia 20 de maio marca o Dia Nacional dos Celíacos, quando entidades reforçam ações voltadas à realidade brasileira, incluindo acesso ao diagnóstico, políticas de inclusão e apoio aos pacientes.

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