O corpo que sabe:  Etarismo, palco e a dança que amadurece

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Quando o Prêmio Desterro – Festival de Dança de Florianópolis abre espaço para a categoria 40+, coloca em cena uma pergunta que o mundo da dança ainda aprende a responder: que corpo é esse que dança com décadas de vida impressas no movimento?

Há uma imagem que Meliza Rizzi carrega como troféu invisível. Foi em Joinville, no maior festival de dança do mundo, quando jovens bailarinos se levantaram espontaneamente para aplaudir de pé um grupo de senhoras e senhores que acabavam de sair do palco. “Isso é incalculável”, ela diz, sem hesitar. 

Meliza tem 49 anos, é professora de educação física e coreógrafa fundadora do “Grupo Vovós Sim, Velhas Jamais”, de Erechim, no interior do Rio Grande do Sul, e participa desta edição do Prêmio Desterro – 15° Festival de Dança de Florianópolis, que inaugura a categoria 40+.

Há 17 anos, Meliza constrói no Sul do Brasil uma resposta prática a uma pergunta que o mundo da dança ainda reluta em fazer: o que acontece quando o corpo que dança envelhece e insiste em permanecer no palco? É precisamente essa pergunta que o Prêmio Desterro começa a responder ao consolidar a categoria 40+. Uma iniciativa inédita no festival que chega num momento em que o etarismo — o preconceito estrutural contra pessoas mais maduras — segue sendo um tabu a ser enfrentado abertamente nas artes cênicas brasileiras.

Segundo Carlos Eduardo de Andrade, diretor-geral do Prêmio Desterro, a Mostra Desterro 40+ foi criada com o objetivo de ampliar espaços de visibilidade e valorização para artistas da dança com mais de 40 anos, reconhecendo trajetórias, maturidade artística e a continuidade da produção criativa.

“A criação da Mostra Desterro 40+ surgiu da percepção de que cada vez mais artistas seguem ativos e desejando permanecer no palco, independentemente da idade. Sentíamos a necessidade de criar um espaço de valorização dessas trajetórias, reconhecendo a experiência, a maturidade artística e a continuidade da dança em diferentes fases da vida”, explica Andrade.

O espaço que se estreita

Para quem passou a vida inteira no palco, a chegada dos 40 anos traz uma realidade que poucos gestores culturais querem nomear: o espaço cênico destinado a corpos maduros diminui. Com poucos espaços na dança profissional para essa faixa etária, resta a sala de aula, a docência, o trabalho nos bastidores, mas raramente o palco que é, por definição, o lugar da explosão do intérprete.

“Eu acho que há muito preconceito ainda”, afirma Meliza. “Na minha cidade, quando as pessoas assistem, elas dizem: nossa, eu nunca imaginei que as vovós e os vovôs poderiam fazer esse tipo de coisa. Porque elas imaginam um grupo de velhos usando roupas feias, fazendo movimentos tranquilos, sem muita dificuldade.” O que encontram no palco, no entanto, é outra coisa”. 

O que o corpo maduro sabe

Há uma distinção que a dança ainda não aprendeu a valorizar adequadamente: a diferença entre técnica adquirida e sabedoria incorporada. Um bailarino que dança há décadas não executa apenas passos, ele interpreta com camadas de experiência que o corpo jovem, por mais virtuoso que seja, ainda não alcançou. A expressão, o timing dramático, a presença cênica que só o tempo constrói.

Meliza observa essa diferença com precisão clínica. Quando fala sobre a geração que hoje chega à categoria 40+, muitos deles ex-bailarinos com trajetória profissional, ela antevê o que estará nos palcos daqui a vinte anos: “Quando chegar nos 60+, vai ser incrível. Porque eles têm uma memória corporal, uma memória de tudo que viveram no palco, uma expressão. Mesmo que o braço ou a perna não aconteçam mais como antes, eles têm uma expressão maravilhosa.”

É essa memória do corpo, sedimentada em anos de ensaios, apresentações, quedas e recomeços, que torna o intérprete maduro insubstituível. O movimento não envelhece. Ele amadurece.

Os desafios que ninguém conta

No caso do Grupo Vovós Sim, Velhas Jamais, o desafio é ainda mais radical: nenhuma das integrantes teve vivência com a dança na juventude e o elenco atual vai dos 54 aos 89 anos. Dona Albina e Dona Inês são presenças permanentes no grupo desde o início. Meliza parte de corpos que precisaram aprender na maturidade o que significa habitar o próprio movimento.

“Eu levei muitos anos para elas se entenderem como um corpo dançante”, ela conta. “Comecei a colher alguns frutos há cerca de quatro anos.”

No Prêmio Desterro, o Grupo Vovós Sim, Velhas Jamais, apresenta “Uma Memória Para Sempre” — uma homenagem a Ayrton Senna. “A música por si só é muito significativa, e eles se identificaram muito”, diz Meliza. “Eu acho que vai ser emocionante.”

A construção da peça revela toda a sofisticação pedagógica da professora. Sem nunca excluir ninguém do elenco, Meliza dividiu o grupo em subgrupos com tarefas coreográficas compatíveis com as capacidades individuais de cada integrante. 

O que um festival pode mudar

A presença da categoria 40+ no Prêmio Desterro coloca-se como um posicionamento sobre o espaço da cena e apresenta consequências concretas: para os grupos que finalmente têm para onde ir, para os jovens bailarinos que encontram no palco uma imagem de futuro possível, para o público que descobre que a dança é também uma forma de envelhecer com dignidade e beleza.

Meliza vê com clareza o que essa visibilidade significa para as suas bailarinas. Para ela, é simples: “O objetivo do grupo é participar e ser feliz.” O palco, afinal, nunca foi só para os jovens. Foi sempre para quem tem algo a dizer com o corpo. E quanto mais anos esse corpo carrega, mais ele tem a dizer.

O Prêmio Desterro – 15° Festival de Dança de Florianópolis ocorre de 12 a 17 de maio, no Centro Integrado de Cultura (CIC) e Teatro Pedro Ivo, em Florianópolis. É realizado pelo Instituto Cultural Desterro, por meio do Programa de Incentivo à Cultura (PIC) do Governo do Estado de Santa Catarina, aprovado pela Fundação Catarinense de Cultura, com o incentivo das empresas Condor, Havan, Hiper Select e Mili. 

Mais informações em premiodesterro.com.br e @premiodesterro.

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