“Saí com fome”, “porção muito pequena” e “paguei caro para comer pouco” estão entre os comentários mais comuns deixados por clientes em avaliações de restaurantes associados ao Guia Michelin. As críticas costumam gerar debates nas redes sociais e dividir opiniões entre quem valoriza a experiência da alta gastronomia e quem espera refeições mais fartas. Para a chef brasileira Cândida Batista, que integra a equipe de uma cozinha selecionada pelo guia em Viena, na Áustria, essa diferença de percepção ajuda a explicar por que alguns dos comentários mais curiosos da internet surgem justamente em restaurantes desse perfil.
Cândida conta que uma das avaliações mais curiosas que encontrou foi justamente a de um cliente afirmando que a comida de um restaurante Michelin “não enchia barriga”. “Essa foi uma das críticas mais engraçadas que eu li. Em alta gastronomia, você não olha para um prato isolado. Normalmente existe um percurso inteiro. Antes mesmo do primeiro prato chegar, geralmente já existem pequenas entradas, pães, canapés e outras surpresas preparadas para abrir o jantar. No final, ainda chegam os doces que encerram a experiência. A proposta não é reproduzir a lógica de uma churrascaria ou de um rodízio, onde a pessoa come até não aguentar mais”, afirma.
Segundo a chef, a alta gastronomia trabalha com uma proposta diferente, baseada em narrativa, memória afetiva e identidade cultural. “Muita gente chega esperando a lógica de um rodízio, mas são experiências completamente diferentes. Quando alguém vai a um restaurante desse perfil, não está consumindo apenas comida. Existe o ambiente, a pessoa com quem você está dividindo a mesa, a história que o chef quer contar e os ingredientes que representam aquela região. Muitas vezes o que está no prato não é apenas um ingrediente. É uma memória da infância do chef, uma referência aos lugares por onde ele passou ou uma homenagem à região onde está cozinhando”, explica.
Cândida afirma que esse choque de expectativas acontece porque muita gente ainda associa valor à quantidade servida. “Nem toda crítica feita a um restaurante Michelin está relacionada à qualidade da comida. Muitas vezes ela revela um choque entre aquilo que a pessoa imaginava encontrar e a proposta da experiência. No meu caso, tento levar um pouco do Brasil para a Europa através dos sabores, dos ingredientes e das histórias que coloco nos pratos. No fim, a proposta não é sair da mesa passando mal de tanto comer. É sair levando uma memória, uma conversa e uma experiência que continue com você muito depois do jantar terminar”, conclui.

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